Existem três grupos de mães quando falamos em ter filhos. Há aquelas que logo à partida, vão querer mais que um filho, mesmo que a primeira gravidez tenha sido difícil, parto horrível e bebé que não durma nunca. Aquelas que só vão ter um filho, porque não podem, seja por razões de saúde, financeiras, falta de suporte familiar…
Depois há um grupo de mães que não vão ter mais que um filho porque simplesmente não querem.
Eu pertenço a este último grupo.
Fui mãe aos 36 anos. Bastante tarde para a geração anterior. O comum para a nossa. Como tal, tive todo o tempo do mundo para perceber se queria ser mãe. Nunca me bateu aquela coisa do relógio biológico tocar dentro de mim. Se bateu, nunca o senti. Basicamente, decidimos ser pais (eu e o meu marido, está claro) por queremos dar continuidade geracional. Fazia-nos confusão pensar na nossa morte e acabar tudo ali, não haver continuidade do nosso sangue.
Não me lembro de, em mais nova, andar a dizer que queria ser mãe quando fosse “grande”. Mesmo quando casei, sempre pensei: “se vier a ser mãe sou feliz, mas se não acontecer também sou feliz”. E o facto é, que só depois de sete anos de namoro é que lá tomamos a decisão.
Agora que sou mãe, são muitas as pessoas que nos dizem “Agora, têm que pensar no segundo filho!” “Filho único é que não!”. E a resposta é sempre a mesma “Estamos muito felizes assim, obrigada!”
A verdade é esta: Eu e o meu marido somos egoístas, percebem? E agora que sabemos o que é ter um filho (coisa muito boa que nos aconteceu, por sinal, na nossas vidas), percebemos o quão importante é termos tempo para nós (que é pouco, está claro). Dormir até tarde, jantar fora, ir ao cinema, fazer férias só nós dois, cuidar de mim, namorar muito, coisas que enquanto se tem uma criança pequena acontecem com menos frequência. Como tal, queremos que a nossa filha nos acompanhe ao máximo nas actividades que façamos, queremos que ela cresça, amada, com segurança, com bons vínculos afectivos, mas também queremos que ela se torne independente! Para quê? Para irmos gozando aos poucos, do que essa independência nos traz! Liberdade!
Não, não me vejo a repetir o processo de educar e amparar um bebé. Sou honesta, não gostei de todo dos primeiros meses da maternidade… Aliás, do primeiro ano. É desgastante… Para mim, foi. E não vejo grande vantagem, para mim, em passar por todo esse processo, percebem?
Ah, mas dizes isso, porque não foste filha única e o desgosto que dás à tua filha de não ter um irmão, de poder brincar e partilhar.
Ora bem, isso depende. Comigo, só agora em vida adulta é que tenho uma relação de verdadeiro amor com a minha irmã. O que me lembro da minha infância e adolescência é de andar sempre aos berros e às turras e a ser castigada, pelo facto de ter uma irmã. Cada um terá o seu ponto de vista. O meu é este: Não irei queimar mais nenhum neurónio a ter mais filhos. Os poucos que me restam, quero reservá-los para viver a minha vida com a liberdade que tanto gostei e gosto de ter.
É verdade que me sinto imensamente feliz e grata por ter sido mãe. Quer queiramos quer não, de facto, só quando somos mães é que se fazem determinados cliques no nosso ser mais íntimo, que nos mudam para sempre. E no meu caso, mudei para muito melhor.
E se estou tão bem, para quê estragar a coisa, só porque “devias dar um irmão à tua filha”?
A disponibilidade emocional que tenho para dar a um filho, depende em primeiro lugar do meu bem estar pessoal. E esse bem estar pessoal depende por sua vez, da liberdade que tenho que sentir à minha volta. Ter mais que um filho, obriga-me a gerir tempo. Tempo esse, que quero continuar a ter para mim.
Vera Oliveira