Maternidade

Quando as crianças são esquisitas para comer – Pais à beira de um ataque de nervos

Eu iniciei a introdução da diversificação alimentar com a minha filha, aos quatro meses. Eu não tinha leite materno suficiente e a Pediatra achou que podia iniciar a introdução da papa. No meu caso iniciei pela papa, mas sei que a maior parte inicia com a sopa. A explicação que a Pediatra nos deu é que a papa teria um sabor mais idêntico ao do leite (naturalmente doce como o leite) e que assim, o processo de introdução da diversificação alimentar seria mais pacífico. E assim foi. Mas a Maria nunca foi uma bebé que amasse papa, havia dias que nem lhe tocava.

Os meses foram passando, e a introdução de novos alimentos foi acontecendo muito devagar: a sopa, o iogurte. E à medida que se avançava, eu verificava que a Maria não era muito constante nos seus gostos, ora comia mais ou mesmos bem, ora não comia nada. E isso deixava-me stressada e consumia-me muita energia. 

Outra coisa que a Pediatra aconselhava era dar à bebé para a mão, fruta e legumes com texturas e sabores diferentes para ela ir explorando. Para ir fazendo uma espécie de BLW (Baby-Led Weaning) – esta teoria é mais complexa pois é uma forma de introdução à diversificação alimentar alternativa à tradicional papa ou alimentos triturados, em que se oferece ao bebé desde o início alimentos inteiros, de forma a explorar as diferentes texturas (existem imensos livros e se quiserem saber mais é só google it). Mas, o meu pânico de ela se engasgar era tanto que, acabava por evitar oferecer-lhe, admito. Mesmo com aquelas redes que existem em que se coloca lá dentro o alimento, a Maria rejeitava à primeira e eu automaticamente desistia.

Pois bem, triturava tudo no início, mas mesmo assim, a Maria não gostava de tudo. Rejeitava muita coisa e começou a querer comer sempre o mesmo. E os meus momentos de stress e ansiedade com a Maria, começaram a ser as horas das refeições. O tempo foi passando, e chegou a altura de introduzir os alimentos sem serem triturados. A coisa lá foi devagar, umas coisas ela comia, outras rejeitava e eu lá ia insistindo, mas sempre com muito medo que ela engasgasse. Começou a ser aquela criança “pisco” para comer. Começou a gostar muito de batata, arroz, massa, carne e peixe, mas tudo o resto (os legumes e fruta, por exemplo), era para esquecer.

Não percebi, com os meus medos, o quanto condicionei a introdução dos alimentos sólidos.

Como o meu stress já ia em altos níveis nos momentos das refeições, e o sentimento de culpa ainda mais alto, resolvi começar a procurar informação. Ler livros e pesquisar na net, foram meio caminho andado, para me sentir ainda mais culpada. Percebi que não tinha sido consistente e paciente o suficiente e que as minhas inseguranças tinham afectado ainda mais, o paladar já por si esquisito da Maria (mesmo o meu marido dizendo o contrario, que estávamos a fazer a coisa bem, simplesmente tínhamos uma filha que era esquisita). Nesta altura iríamos ali pelo um ano e pouco de idade da Maria.

Depois de muita leitura, percebi que, essencialmente, havia duas coisas que eu não estava a fazer de forma correta:

  • Insistia, insistia, insistia para que ela comesse e, claro, os momentos das refeições estavam a virar autênticos momentos de tensão familiar com choro à mistura. ( Não me esqueço de uma grande amiga me ter “obrigado” a insistir para lhe dar a sopa até ao fim… a ignorância e a insegurança, são umas coisas fantásticas…)
  • Como a Maria negava muita coisa, eu comecei a oferecer só o que ela gostava. Errado.

Percebi que o nosso principal papel na alimentação dos nossos filhos, é proporcionar-lhes diversificação alimentar de qualidade, com os nutrientes e vitaminas necessários. E esse processo, terá que ocorrer de forma sistemática e consistente. Haverá alimentos que nunca gostarão, mas ao proporcionar-lhes diariamente o acesso a alimentos saudáveis, com calma e paciência, haverá o dia que ela provará a cenoura, a ervilha, a manga.

Depois percebi, que a criança come o que tem de comer e parará quando se sentir satisfeita. E isso, a maior parte das vezes estará muito longe do que achamos que deveria ter comido. Há dias em que a Maria come três colheres de sopa e diz “não quero mais” e outros dias que come a sopa toda e ainda diz “que boa”. E é nesta parte que erramos muito!! Querem perceber?

Que se acuse, quem nunca disse frases do género “Se não comeres, não vais brincar”, “Se não comeres, não vês desenhos animados”, “Tens de comer tudo, quer queiras, quer não queiras”. Eu própria já me vi a dizer coisas assim!

E é aqui que temos de entender, que comer não é uma actividade emocional! Não é um jogo do “tens de ou senão”! Temos de entender que as crianças comem quando têm fome e se por acaso, comem pouco ou nada ao almoço, terão a oportunidade de comer melhor ao lanche ou ao jantar!

E falo-vos por experiência! Quando comecei a mudar a minha forma de estar no momento das refeições, a Maria começou a comer melhor, a querer agradar até! Se come tudo o que eu desejaria? Não, de todo! Continua a ser difícil introduzir novos alimentos. Mas, a diferença é que eu agora deixo fluir! E já chegou o dia em que provou a alface, a cenoura, a ervilha, a laranja,… E a Maria já percebeu o quanto é emocional para a mãe as refeições, quando há poucos meses me diz: “Estás feliz por ter comido ervilha?” (tem dois anos e meio, no momento) e eu não sabia se havia de ficar feliz ou triste com esta pergunta que ela me fez! (já me tornou a dizer várias vezes, “estás feliz por ter comido x?).

Para mim tornou-se claro o cenário, quando a Maria me começou a fazer estas perguntas: que ela entende e sente a minha tensão (mesmo que esteja ali camuflada) e que no fundo se esforça por me agradar… Mas eu não quero que ela me agrade! Eu quero que ela aprenda a desfrutar no momento das refeições do prazer de comer!

E, desta forma, estou em constante aprendizagem e percebi que as refeições são para relaxar, desfrutar e brincar com a comida! Percebi, que se a colocar a ajudar-me a confeccionar os alimentos é uma forma de brincadeira, de relaxe e de matar a curiosidade sobre aquele ou outro alimento, que aproveita e prova (mesmo que deite fora a seguir). Percebi, que é importante, vermos juntas os alimentos que faz bem ou mal “à barriga” e mais importante ainda, mostrar todos os dias alimentos variados, quer ela coma ou não coma!

Provavelmente vais ser assim uma “esquisita” sempre! A verdade é que na infância é tão comum estes problemas alimentares, que muitos Pediatras falam em ser “normal” este estados e estarem relacionadas com fases de desenvolvimento.

Caso queiram ler um artigo muito interessante sobre este assunto, deixo-vos aqui o link de um blog que sigo (está em inglês, mas lê-se bem e caso não percebam alguma palavra, nada que um dicionário não resolva). O blog chama-se Parenting From The Heart e é lindo o que esta mãe Alana, escreve sobre a parentalidade e os seus desafios. Acedam aqui.

Um grande beijinho

 

Vera Oliveira

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s