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Provas de Aferição: Fontes de stress e de inutilidades

Há umas semanas, uma mãe blogger escrevia na sua rede social a perguntar se era a única a achar que não têm jeito nenhum estas provas de aferição.

Não, não é a única. E eu explico porquê.

Em Portugal o sistema educativo teve 40 reformas curriculares desde 2006, sim 40, segundo o Conselho Nacional de Educação (CNE). Dessas 40 reformas verifica-se que a adequação dos currículos em nada melhorou a condição de aprendizagem dos alunos: carga horária das maiores ao nível europeu, professores frustrados e desesperados na qual se limitam a despejar um programa interminável e alunos frustrados com dificuldades de aprendizagem e a odiarem a escola já no 1º ciclo.

Mas afinal qual o objectivo duma prova de aferição no 2º, por exemplo? Avaliar competências académicas certo. Para quê? Pergunto eu.

Este ano saíram os resultados de um estudo desenvolvido pela associação EPIS denominado “Aprender a Ler e Escrever em Portugal”, na qual o objetivo era aprofundar o conhecimento sobre o problema do insucesso escolar nos primeiros anos de escolaridade. Os resultados desse estudo, revelam que a primeira causa de repetência no 2º ano é o défice de competências de leitura dos alunos.

Sendo assim, há algo que anda muito mal neste programa curricular, a começar pela equipa de pessoas que o elaboram em que não devem ter conhecimento de causa de se processa o desenvolvimento cognitivo da criança.

Para perceberem um pouco melhor o quanto andamos errados, analisemos o fenómeno da educação na Finlândia:

Entra-se para o pré-escolar aos seis e aos sete anos de idade é que se entra para a escola, dando-se enfâse ao brincar em prol de se começar logo de forma estruturada a ensinar a ler e a escrever. Aliás, não existem disciplinas e toques de hora a hora mas sim tópicos de trabalho. Em Portugal para além da entrada obrigatória ser aos seis anos, já estamos a levar aos sete com um exame em que a leitura e escrita já têm que correr na veia com um programa extenso que não lembra a ninguém.

Na Finlândia a escola obrigatória é de nove anos e só existe um exame no fim do secundário. Curiosamente, existem poucas retenções, os resultados dos alunos e a motivação para continuarem a estudar são fenomenais. Em Portugal, a escola obrigatória é de doze anos com um sem fim de exames (para provar não sei bem o quê) e a vontade de desistir de estudar começa logo no 1º ciclo.

O que eu vejo nas crianças que acompanho e também nos professores, é cansaço, tristeza e pouca vontade de estar numa sala de aula que ainda tem o mesmo método de ensino do tempo de Salazar – crianças que têm que estar em silêncio na sua carteira enquanto o professor desesperado despeja a matéria, não podendo haver crianças distraídas ou mal comportadas pois isso é coisa para bebés e que no final do 2º ano letivo já têm que conseguir ler x palavras por minuto, senão passam a ser consideradas crianças com dificuldades de aprendizagem. Ritmos de aprendizagem diferentes? Não, não existe.

Há uns quatro/cinco anos saiu um estudo interessante feito pela Universidade do Minho (não me lembro do nome do estudo para conseguir indicar-vos a leitura do mesmo) em que os resultados eram chocantes mas que explicavam a meu ver muita coisa. Este estudo então concluía que o programa curricular do 3º ano não estava adequado ao desenvolvimento cognitivo de uma criança que frequentasse o ano (que o normal será ter oito anos), ou seja, estava (e continua a estar) acima das capacidades cognitivas duma criança de oito anos.

Isto quer dizer que hoje em dia não é preciso ser-se bom aluno, em Portugal, é preciso ser-se um super aluno com capacidades muito acima da média e com alguns poderes sobrenaturais para conseguir acompanhar o programa curricular dum 1º ciclo, por exemplo.

Para mim, estas crianças de hoje são umas heroínas, ponto final.

Este ano, o Governo dá-nos uma novidade: à antiga reforma dá-se agora o nome de “flexibilização curricular” em que propõem uma “nova” revisão curricular que mostra um cheirinho muito leve de mudanças de fundo em que 25% do currículo escolar poderá ser gerido pela escola. Ou seja, esses 25% ficam ao critério das escolas trabalhar com os alunos sem ser em forma de aula tradicional dada por um professor.

Vamos rezar para que tal aconteça. Mas isto ainda são apenas umas areias no grande deserto que são as metas curriculares portuguesas.

Valham-nos pais empenhados no amor, no afeto e no estar com os filhos nas suas dores e alegrias e valham-nos os professores, peritos em malabarismos entre dar a matéria e dar atenção às necessidades individuais de cada aluno.

Vera Oliveira

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O que os pais precisam de saber sobre a Psicomotricidade

Psicomotricidade é uma palavra que  começam a ouvir quando a criança entra para a pré-escola: no plano de intervenção da sala em que está inserida, no final de cada período, quando a educadora entrega as evoluções que a criança está a fazer… ou então nas consultas de pediatria quando o médico faz a avaliação do desenvolvimento global da criança.  Mas muitos são os pais, que pensam que a psicomotricidade se resume à locomoção e se muito à apreensão fina das mãozinhas dos seus pequenotes.

Mas afinal, porque é que é necessário saber um pouco mais sobre a psicomotricidade?

Sabermos sobre o que é o desenvolvimento psicomotor é tão importante, como sabermos sobre o desenvolvimento cognitivo ou emocional do nosso filho.

A psicomotricidade é um campo transdisciplinar que estuda e investiga as relações e as influências, recíprocas e sistemáticas, entre o psiquismo e a motricidade, em que estão envolvidos processos cognitivos como a atenção, a memória, a perceção, o raciocínio, a sequencialização, a planificação (entre outros) e o controlo e execução motora e os processos multisensioriais (os nossos sentidos associados a ações).

Por exemplo, um bom controlo motor permite à criança explorar o mundo exterior na qual se constroem as noções básicas para o seu desenvolvimento intelectual.

Mas retomemos à importância da psicomotrocidade no desenvolvimento global da criança.

Os elementos principais que compõem a psicomotricidade são:

  • Motricidade Fina
  • Motricidade Global
  • Equilíbrio
  • Esquema Corporal
  • Organização Espacial
  • Organização Temporal
  • Lateralidade

Vamos lá perceber a importância que cada elemento tem.

A motricidade fina é o que engloga no futuro a escrita. Mas antes há que controlar e coordenar os músculos e articulações do braço, pulso e mão. A esta ligação, chamamos coordenação visuomotora e é algo que é muito estimulado (muitas vezes de forma insconsciente) pelos pais – ao ensinar a pegar com os dedos em pinça em papel, em pequenos objetos; ao ensinar a pegar num lápis e rabiscar, ao ensinar virar folhas de um livro mexendo só os dedos e o pulso…

motricidade global engloba a capacidade da criança, os seus gestos, as suas atitudes, os seus deslocamentos, o ritmo. É a criança começar a gatinhar de forma harmoniosa, dar os primeiros passos de forma equilibrada, é saltar, dançar, parar e voltar a andar com harmonia. A perfeição progressiva do acto motor implica um funcionamento global dos mecanismos reguladores do equilíbrio e da atitude.

Equilíbrio. A criança pequena, antes de alcançar o equilíbrio, adota apenas posturas, o que equivale a dizer que o seu corpo reage de maneira reflexa aos múltiplos estímulos do meio. A possibilidade de manter posturas, posições e atitudes indica a existência de equilíbrio. Contudo, está intimamente relacionado com a energia tónico-postural.

Qual a importância do tónus na aprendizagem escolar e qual a importância do professor conhecer o seu significado?

Em primeiro lugar, porque é importante no respetivo ajustamento psicomotor da criança para as suas aprendizagens. É uma das pré-aptidões, pois é onde vai assentar a postura base, a expressão corporal e motora da criança;

Em segundo, porque exprime da melhor forma a pedagogia utilizada pelo professor e o tipo de empatia alcançada entre professor-aluno. Uma vez que a disponibilidade corporal (músculo-articular-postural-emocional) é influenciada pelas relações que se estabelecem.

Ou seja, num ambiente pedagógico em que a relação professor-aluno não é plena, o comportamento da criança vai ser de alguém mais contraído, com mais dificuldade em se concentrar. A criança naturalmente,  vai adotar uma posição contraída e defeituosa na cadeira, com rigidez e falta de disponibilidade ao nível da região do pescoço e do ombro e consequentemente dificuldade em segurar e manipular corretamente o lápis, ou seja, sem coordenação visuomotora fluente, por exemplo.

Esquema Corporal é a organização das sensações relativas ao seu próprio corpo em associação com os dados do mundo exterior, ou seja, é a imagem mental do corpo. É o conhecimento do que as partes do corpo podem fazer. Um dos exercícios que os pais podem fazer pedir à criança para desenharem uma figura humana.

Organização Espacial designa a nossa habilidade para avaliar com precisão a relação física entre o nosso corpo e o ambiente e, para efetuar as alterações no decurso dos nossos deslocamentos. Todas as modalidades sensoriais participam em certa medida na perceção espacial: a visão, a audição, o tato e o olfato. De forma progressiva e com a evolução mental da criança, vai estabelecendo a aquisição e a conservação das noções de distância, superfície, volume, perspetivas e coordenadas que determinam as suas possibilidades de orientação e de estruturação do espaço em que vive.

Organização temporal. Existem dois grandes componentes da organização temporal :

  • Ordem
  • Duração

À medida que a criança cresce, vai adquirindo conhecimento da ordem e da duração dos acontecimentos e que existe um sistema cultural de referências, horas, dias, semanas, meses e anos e que os acontecimentos sucedem-se com intervalos.

Lateralidade é a preferência da utilização de uma das partes simétricas do corpo: mão, olho, ouvido, perna e pé. A lateralização cortical é a especialidade de um dos dois hemisférios quanto ao tratamento da informação sensorial ou quanto ao controle de certas funções. Ou seja, é saber se a criança escreve, chuta a bola ou ouve o tique taque do relógio com a sua mão, pé, ouvido direito ou esquerdo. É perceber qual o seu lado corporal dominante.

O próximo post trará o tema das dificuldades de aprendizagem oriundas de disfunções psicomotoras.

Atá lá!

Vera Oliveira