Psicologia, psicopedagogia

” As Crianças Adaptam-se”

Nas últimas semanas foi criado um movimento #assimnãoéescola, que circula pelas redes sociais, face às diretrizes elaboradas pela DGS, na qual constam procedimentos que vão de encontro aos comportamentos a adotar de forma a minimizar o risco de se ficar infetado com o SARS-CoV-2, neste regresso às escolas.

Alguns dos exemplos que mais me chocam nessas medidas, são a redução dos intervalos, a circulação e socialização afastada entre alunos, os familiares não puderem entrar na escola e uso obrigatório de máscaras sempre colocadas, por parte dos educadores e professores.

Se há coisa que é importante para a aprendizagem é a criança sentir-se conectada. A Educadora que conta uma história na hora do conto,  em que exprime com toda a sua experiência as emoções das personagens da história, com uma máscara na boca, perder-se-á alguma magia, certamente. Já para não falar do professor do 1º ano, em que tantos alunos contentes por finalmente irem aprender a ler,  tenta explicar que o som da palavra casa é diferente do som da palavra caça, com uma máscara na boca. Ensinar sons das letras. Brincar com os sons que saem pela boca. Ler de máscara para crianças que estão a aprender a ler. Como fazemos/vemos isso, com a máscara na boca?

As expressões faciais, são carregadas de emoções e as crianças têm ainda a particularidade de verem/sentirem muito bem as micro expressões dos adultos com a qual se relacionam. O processo de vinculação entre o adulto e a criança/jovem, passa e muito também, pela troca das expressões faciais e pelo toque, pelo contacto, na qual a escola, a seguir aos progenitores deverá ser o ambiente em que se dá continuidade ao processo de desenvolvimento social e emocional, proporcionando dessa forma, a conexão, tão necessária na aprendizagem.

A Sociedade Portuguesa de Pediatria pronunciou-se  sobre as medidas da DGS, na qual deixam vincado a importância da afetividade neste processo de combate ao COVID: “Finalmente, deve existir flexibilidade no cumprimento das normas, em cada momento e tendo em conta os dados locais de transmissão na comunidade. No início do ano escolar, para as crianças que vão contactar pela primeira vez com a escola, devem criar-se condições de segurança que permitam o acompanhamento de um familiar ao novo espaço, dando tempo à criação de vínculo afetivo.”

Robots. É isto que as diretrizes da DGS traduzem. Linhas orientadoras para trabalhar com robots.  Esta doença acabou por conduzir a sociedade para um isolamento, que na impossibilidade de ser possível, há desvinculação do afeto, das emoções.

A Ordem dos Psicólogos também já se manifestou numa carta aberta à Diretora Geral da Saúde, na qual refere entre outras coisas “(…) cremos que medidas como o distanciamento físico entre crianças e jovens,
redução dos intervalos, extensão/concentração dos horários de aulas, alargamento dos
horários diários, uso de máscaras, a entrada dos Pais nas escolas (sobretudo nas creches e
jardins-de-infância) ou a utilização de “objectos de transição” devem ser equacionadas
considerando, para além das dimensões epidemiológicas e de Saúde Pública, as dimensões do
bem-estar e da Saúde Mental/Psicológica das crianças e jovens.”

O que podemos fazer então, enquanto a vida acontece?

Não baixar as armas e continuar a manifestar o nosso descontentamento, assinando, por exemplo, a petição que decorre na página do facebook do movimento @assimnãoéescola.

Enquanto se aguarda pelas alterações das medidas em vigor,

  • Para os alunos do pré-escolar, berçário, o que os pais poderão fazer é que a adaptação seja ainda mais gradual. Uma vez que não podem entrar, começam por deixar uma hora apenas (ou até menos!) e vão mantendo uns dias assim e aumentando devagarinho o número de horas. Esta situação poderá ser mais delicada quando estamos perante crianças mais sensíveis a mudanças, mais reativas. Nem todas reagem com alegria à escola. E se já num contexto “normal” a adaptação para essas crianças é difícil, neste contexto atual, nada vem ajudar;

 

  • Tente ficar com o seu filho na entrada, dando colo ou abraço, enquanto ele estiver a chorar e quando estiver mais calmo, puder então entregá-lo à auxiliar ou educadora. (Ainda hoje, ao entregar a minha filha na escola, pude assistir a um momento exatamente assim: a criança chorava imenso enquanto balançava na passagem entre a mãe e a auxiliar, até que a mãe, simplesmente parou de insistir na entrega, colocou-se de joelhos, agarrou-o num longo abraço e não passaram 2 minutos para ele parar de chorar, acalmar e foi aí que ele pelo seu próprio pé foi ter com a auxiliar);

 

  • É importante que expliquem aos vossos filhos em casa o que vai acontecer, o que vai ser diferente ao entregá-la na escola, mas salvaguardando sempre que dentro da escola, estarão lá os amigos de sempre para brincar e abraçar;

 

  • Ir respondendo com toda atenção às perguntas que vão fazendo e falar que é normal estar com receio. Mas, se pelo contrário, exista uma grande alegria e excitação por estar a ir para escola, boa! Nada de alimentar na criança, discursos e pensamentos desnecessários que nós adultos carregamos;

 

  • Antes de ir para escola poderão fazer um coração na vossa mão com uma caneta e carimbar na mão deles e dizer algo como “Sempre que a saudade/medo/receio aparecer e apertar, abraça a mão onde está o coração da mãe/pai para te aquecer;

 

  • Podem também criar cartões promessa: escrever o que vão fazer quando o forem buscar à escola ou a fazer no fim de semana.  É importante que escrevam algo que saibam que será possível fazer em conjunto. O segredo é ser simples! “Prometemos que iremos brincar no parque”, “Prometemos que iremos fazer um bolo”, “prometemos que iremos brincar às lutas” (…);

 

  • Aos professores/educadores,  colocar a viseira para o aluno ver melhor a expressão ou ouvir melhor um som, será uma boa solução temporária, na minha opinião. Não está em questão ficarmos protegidos do vírus, pois essa questão não existe, a menos que fiquemos em casa sem sair nunca. O que está em questão, é ajustarmos dentro das medidas de segurança possíveis, o nosso comportamento a cada situação;

 

  • Aos Educadores, deem espaço aos pais e à criança mais ansiosa, para estar o tempo que for necessário, até ela se sentir confortável em ir para o colo ou ir pelo seu pé. Nunca gostei da frase “eles adaptam-se” ou “custa mais a nós do que a eles”. Há situações que não, eles não se adaptam assim tão facilmente e há momentos que a dor é tanto nossa como deles. E por fim, cada criança é uma criança e não saem todas da mesma “fábrica”.

 

 

Vera Oliveira

 

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