psicopedagogia

Aos Pais e Professores de Crianças com Dificuldades de Aprendizagem

Quando iniciei o meu trabalho como psicopedagoga (decorria então o ano de 2005), tinha uma missão dentro de mim: ajudar todas as crianças com dificuldades de aprendizagem que chegassem até mim. Tinha saído da faculdade em 2004 e muito certa que era com e na criança, que toda a minha energia devia ser despendida, até que a mesma melhorasse.

Com a prática, verifiquei o quão sofrida e desamparada era a criança que chegava até mim. Conseguia ler só pelos olhos dos miúdos, a angústia que traziam e a incompreensão de ninguém os entender. Crianças que me chegavam com rótulos de pais e professores de preguiçosos, falta de estudo, falta de regras, incompetentes, desatentos, imaturos, infantis.

E com cada criança, interiorizava que a iria salvar. “Tu vais melhorar, confia em mim”, dizia eu. E batalhava com ela as dificuldades que travava com as letras e os números. E as conquistas iam acontecendo, os avanços iam-se fazendo e a esperança ganhava uma nova forma: “Afinal, eu sou capaz”.

Mas nem todas as crianças tinham o mesmo avanço, nem todas as crianças tinham o mesmo carácter, nem todas as crianças tinham a mesma rede de suporte, nem todas as crianças tinham a mesma motivação. E comecei a perceber, que eu estava demasiado focada na criança.

Estava focada em melhorar a criança. Estava focada no problema neuro biológico. Estava focada nas questões emocionais da criança. E era NA criança que eu me debruçava.

Percebi então, que a criança dependia, para além da minha ajuda, da aceitação. Da aceitação na escola e em casa. Da aceitação da criança que era: uma criança com dificuldades para ler, uma criança sensível ao que lhe diziam, uma criança que queria brincar em vez de fazer os trabalhos de casa, uma criança que não gostava da escola, uma criança que precisava de ser ouvida.

E foi aí que a luz me chegou. Independentemente do apoio psicopedagógico que a criança teria comigo, era crucial trabalhar com os pais e com o professor. Desmistificar, acalmar, dar estratégias e acima de tudo, escutar.

Escutar uns pais cheios de culpas, cheios de medos, cheios de crenças, cheios de expectativas que não correspondiam ao filho que tinham à frente.

Escutar um professor cheio de crenças, cheio de expectativas, cheio de defesas em que tinha dificuldade em apoiar, numa sala cheia de alunos, crianças com dificuldades específicas de aprendizagem.

E então comecei o meu caminho. E o meu caminho com cada criança, passava por amparar, escutar, abraçar, apoiar cada pai e professor de cada criança que eu acompanhava.

Enquanto escrevo isto, apetece-me chorar. Chorar pelo que de bom acontecia aos pais e à criança, quando aceitavam o filho que tinham. Quando desconstruíam mitos e crenças. Quando ajustavam as suas expectativas. Quando se sentiam informados.

A motivação na criança é uma coisa fantástica. Está directamente relacionada com o quanto os educadores à volta dela, acreditam nela. Está directamente relacionada com a aceitação que os adultos à volta dela, fazem. Está directamente relacionada com o vínculo emocional que os adultos à volta dela, estabelecem com ela.

Não é matemática. É amor. A conjugação de todos os factores que levam uma criança a melhorar na escola, é o amor. O amor que cada adulto deposita nela e confia.  E milagres acontecem. Porque fomos nós adultos que mudamos e aceitamos, primeiro.

Eu tinha medo de ser mãe. Não, pelo facto de não ser capaz. Mas por perceber que o peso das crenças e mitos, da falta de informação, perante uma adversidade (num contexto de aprendizagem escolar), me iria dar luta. E tinha medo de falhar, claro!

Mas de onde vinham estes meu medos? De onde vinham estas minhas crenças, inseguranças, do que era suposta ou não, ser enquanto mãe? Complicado, não é? Esta necessidade de provar, que estava enraizado no meu inconsciente. Muito provavelmente por trabalhar na área da psicopedagogia e não poder falhar. Por ter medo de não ser a perfeição. Por ter medo de levar com a dúvida e ambivalência que é a parentalidade.

Que tola.

Ser mãe foi o que de melhor me aconteceu na vida. E sabem porquê? Porque me fez procurar saber o que é isto de educar um filho, fez-me questionar as MINHAS crenças, as MINHAS expectativas. Fez-me questionar que tipo de mãe eu queria ser. E está a ser extraordinário, este processo de desconstrução e reconstrução pessoal.

A parentalidade é dos temas (senão O tema) que mais controversa traz entre as pessoas, porque traz o que temos de mais profundo: as nossas convicções, crenças, tipo de educação que tivemos, provações, medos, expectativas, mas acima de tudo, porque é pelos pais que somos, que ajudamos a construir o futuro de amanhã.

Sejam bons convosco. Baixem as armas. Respirem. Informem-se. Aceitem. E sigam o vosso caminho de forma informada e consciente.

 

Vera Oliveira

 

Lifestyle, Maternidade

E quando precisamos de fazer um DVL ?(um desliga e volta a ligar a nós mesmos)

Quando criei este blog, o principal objectivo era de expor aqui temas relacionados com a aprendizagem das crianças e adolescentes. Um blog destinado essencialmente a pais e também professores, com uma visão clarificadora das preocupações dos mesmos face aos seus filhos e à escola. Sou psicopedagoga e como tal, é isso que sei fazer ao longo dos quase 14 anos de experiência profissional.

No entanto, desde que fui mãe, temas como a maternidade e a parentalidade, suscitaram em mim um grande interesse, na qual nos últimos dois anos tenho dedicado muito do meu estudo e formação a estes temas.  Continue reading “E quando precisamos de fazer um DVL ?(um desliga e volta a ligar a nós mesmos)”